1 de abril de 2006

A Importância do Ato de Ler: em três artigos que se completam



RESENHA
Freire, Paulo. A Importância do Ato de Ler: em três artigos que se completam. 45 ed. São Paulo: Cortez, 2003, 87p.


Um dos maiores pedagogos da atualidade, Paulo Freire nasceu em Recife em 1921 e faleceu em 1997. Sua primeira experiência no campo da educação foi em Angicos, no Rio Grande do Norte, onde alfabetizou 300 trabalhadores rurais, em apenas 45 dias. Político ativista, foi obrigado a se exilar no Chile, após o golpe militar de 1964. Foi escritor, professor e debatedor. Algumas de suas principais obras são: Educação como Prática de Liberdade, Pedagogia do Oprimido, Cartas à Guiné Bissau, Vivendo e Aprendendo, A importância do ato de ler.


Na obra A importância do ato de ler, Paulo Freire traça um painel para demonstrar que a prática democrática e crítica da leitura do mundo e da palavra estimula o leitor a pensar e analisar a realidade vivida. São três artigos que se completam: A importância do Ato de Ler; Alfabetização de Adultos e Bibliotecas Populares: uma Introdução; O Povo Diz a sua Palavra ou a Alfabetização em São Tomé e Príncipe.

O primeiro artigo mostra que a leitura do mundo precede a leitura da palavra. A leitura do mundo é fundamental para o aprendizado crítico e consciente da leitura e da escrita das palavras. Assim o autor propõe um processo de alfabetização que seja montado pelas palavras que expressam os saberes populares advindos da leitura do mundo. Palavras que depois voltam aos alfabetizandos como representações da realidade.

Paulo Freire, no segundo artigo, trata da alfabetização de adultos e de biblioteca populares relacionando os dois assuntos à leitura como uma prática e compreensão crítica da realidade. Diz que não há como negar a natureza política do processo educativo nem o caráter educativo do ato político. Educar é um ato político. Fazer política é um ato educativo. É impossível separar a educação da política e do poder. Daí cabe ao educador crítico alfabetizar para libertar a palavra do alfabetizando: que este além de ouvir, possa também falar. E mais, que o professor que apenas fala e jamais ouve não tem realmente nada a ver com a educação que liberta nem com a democracia. Pelo contrário, ajuda a preservação do discurso autoritário dos governantes.

Antes a alfabetização de adultos era tratada de forma autoritária e os textos para leitura aos alunos escondiam a realidade. Agora, diz Paulo Freire, a alfabetização é um ato político praticado conscientemente pelo esforço da leitura do mundo e da palavra, pois já não é possível textos sem contexto ou palavras sem conhecimento de mundo.

Esta proposta de alfabetização solicita a constituição de um acervo de escritos populares, quando os os educandos são estimulados a escrever para formar uma pequena biblioteca popular onde possam ler e reler as próprias palavras como também as dos colegas. Nesse sentido, a função da biblioteca popular tem algo a ver com uma política cultural, pois incentiva a compreensão crítica do que é a palavra escrita em relação ao contexto para que o povo participe ativamente das mudanças constantes da sociedade.

No terceiro artigo, Freire relata a sua experiência educacional na área da alfabetização de adultos na República Democrática de São Tomé e Príncipe. Seu trabalho, nesta época, envolveu uma alfabetização altamente politizada a serviço da reconstrução nacional. Visou a participação efetiva do povo enquanto sujeito, na reconstrução do país, como no caso a sociedade são tomense, recém-independente do jugo colonial.

Concluímos com a leitura desta obra que ler é dialogar com os textos no sentido de buscar caminhos que favoreçam a mudança da prática política a serviço da formação de nossa identidade nacional. Ler é dialogar com o mundo procurando reescrevê-lo, ou seja, melhorá-lo com a nossa participação consciente. Além disso que um povo conscientizado politicamente pela alfabetização escreve sua história, como também sabe enfrentar qualquer dificuldade no domínio econômico, social e cultural, porque pela leitura do mundo e das palavras é livre.
Trata-se de um trabalho admirável que sustenta muito bem os argumentos para mostrar a importância da leitura para a conquista da liberdade em todos os sentidos. Espero que todos possam ler esta obra: vale a pena ser livre.

Marta Melo de Oliveira

sábado, 1º de abril de 2006

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3 comentários:

  1. Marta, também acho que é muito importante a capacidade de interação entre os alunos, professores e grupo. Assim buscamos compreender o ambiente academico e podermos nos sentirmos seguros do que estamos fazendo sentindo o gosto de poder pertecer a este mundo globalizado onde o conhecimento é tido como algo inovador e porta de entrada para o futuro vendo o professor como mediador entre os corpos docente e discente.
    As critica que a professora me faz me ajuda a melhorar a minha visão.

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  2. Marta, também acho que é muito importante a capacidade de interação entre os alunos, professores e grupo. Assim buscamos compreender o ambiente academico e podermos nos sentirmos seguros do que estamos fazendo sentindo o gosto de poder pertecer a este mundo globalizado onde o conhecimento é tido como algo inovador e porta de entrada para o futuro vendo o professor como mediador entre os corpos docente e discente.
    As critica que a professora me faz me ajuda a melhorar a minha visão.

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  3. Complicações da nossa língua
    Nildo Lage




    Depois de tantas décadas desconhecendo que a terra é redonda,
    E gira em torno do sol ocasionando dias e noites
    Zé Fulgêncio, doutor na arte de cultivar a terra e cuidar de animais,
    Não cabia em si de curiosidade
    De tanto ouvir o filho professor dizer,
    Que a sala de aula transforma vidas.
    A influência foi tamanha,
    Que não resistiu e resolveu ir à escola
    Logo nos primeiros meses, já estava perplexo com o excesso de informações
    Entre elas, que o Governo deveria reformular os preceitos
    Com regras para os brasileiros: a isonomia.
    Totalmente confundido, perdeu o sono.
    Um ano depois, não suportou a sobrecarga e desabafou:
    - Esse tá de Novo Acordo Ortográfico
    Foi feito para atrapaiá a vida da gente
    Se antes nóis tinha dificulidade pra falá,
    Imagina com esse amontado de az esquerda, az dereita,
    junta, separa...ífen cai, acento levanta...
    São tanta, que a língua inrola, desinrola.. Inrola de novo...
    ... Dá revertério e a mardita da palavra num sai.
    Já tem cabra falano puraí que sou mocorongo.
    O fundunço, já tá virando corneteage,
    Pois tem até gente dizeno que perciso mudar o meu jeito de falá.
    Mas como insiná um caipira a falá o portuguêis corretu
    Se num intendu nadica de nada do que os correto fala?
    Certu dia, o professô disse um bissurdo:
    Que “- se nós fôssemos, iríamos longe”
    Mas se agente fomos, nóis num chega do mermo jeitu?
    É... O mundo mudou... Virô um rebosteio...
    Não temo mais o Lobato para falá do “Jeca Tatu”,
    Só esse negociu de pocoémon, Avatá...
    O “Joaquim Bentinho”, do amigo Cornélio Pires
    Que é gente como nóis... Proseia como nóis
    Num intendo tantas vorta para se chegá num mermo lugá
    Essa giração toda deixa minha cuca zonza
    Deusolivre sô!
    Quanto mais gira, mais fico inculcado.
    Óia, fiquei tão incafifado, que andei assuntano
    E descubri que tem professô tirano zero em prova,
    Gente da televisão dizeno:
    “– Aja o que ajar!”
    E se nóis tem um presidente que diz “Nóis ia, nóis pode... Nóis fais”...
    E até... “Eu não fi nada”...
    ... Vou continuá dizeno: “a gente fomos!”

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